sexta-feira, março 25, 2005

Homenagem a Afonso Roberto

Um héroi da sintaxe e da palavra
Ser real feito mito legendário
Tendo às mãos sua terra - dicionário -
Ele a capina, planta, colhe e lavra

Poeta que merece um altar
Pois zombando de santas divindades
Cantando as nossas realidades
É o Deus da poesia popular

É vulto nobre da literatura
E admira a mulher bonita
Além de habilidade na escrita
Tem elegância até na leitura

0h! Boa-nova para o povo ateu:
Alegrai-vos! Mantei o olhar altivo
Pois esse homem permanece vivo...
Alegrai-vos, Afonso não morreu!

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Supérfulos

Aristides entrou em casa, olhou o jardim e gritou desesperado:
- Que fizeram com minha planta?
Aquela era a única espécie da região. Ela a comprara em uma viagem à Capital há três anos. O vegetal adaptou-se ao clima semi-árido sem reclamações. Olhando a planta, via-se que o atentado não era de cunho pessoal: roubara-se apenas os galhos.
Aristides morava apenas com sua avó paterna. Cega e coxa, já não tinha possibilidades de fazer outra coisa senão escutar no rádio músicas que lhe lembravam a primeira eucaristia. O velho terço de madeira fora perdido e sua vista ineficiente tornou as chances de encontro diminutas. Não havia dúvidas: a velha nada tinha haver com o furto.
Cabe ressaltar que os ganhos com a venda de folhas haviam dado ao infeliz grandes artifícios de proteção. Ao mínimo toque nos muros da residência, eram ativados dispositivos geradores de dor, sangue, morte e ranger de dentes. Se por acaso algum paranormal conseguisse chegar ao topo da parede sem tocá-la, a cerca elétrica o pararia. Até mesmo se conseguisse ultrapassar o obstáculo em um só pulo, os raios infra-vermelhos ligados do telhado ao muro ordenariam a cinqüenta fuzis o estralhaçamento total do indivíduo, controlado de modo que nenhuma gotícula de sangue toque a planta sagrada.
Inaudito furto. Aristides mesmo se utilizando do monopólio nunca esqueceu-se das leis de oferta e procura. Tinha a inútil preocupação de não colocar muitas folhas no mercado temendo a baixa dos preços, mesmo sendo ele o seu único impositor.
Resolveu-se então subornar alguns cientistas para realizarem exames de impressão digital no vegetal ilegal e em toda a população local. Encontrou-se então na pracinha um maconheirozinho qualquer, personagem muito comum no logradouro após a viagem de volta de Aristides, e definiu-se pois nele o audacioso autor do crime.
Diante de tal façanha, receiando que a polícia estadual descobrisse seu modo de subsistêncua, o "agricultor" limitou-se a perguntar como ele conseguira realizar o ato famaz.
- Entrei na casa normalmente e peguei o que precisava.
Dessa forma foi que Aristides notou que na sua casa não havia porta.

Moral: "Tem gente que se preocupa com os galhos, pois não sabe que é no tronco que está o coringa do baralho" (Raul Seixas)

O tamanduá e o bezerro, fábula infantil

Encarceraldo era um bezerrinho maroto. Não obstante isso, todo domingo ia à lagoa Igrejiaçu para beber água e assistir à missa do Peixe-espadre, o sacerdote da fazenda. Ele, o bezerro, se orgulhava de morar naquele recanto onde podia pastar o dia inteiro sem incômodos; visto que o dono da fazenda, bicho-homem, sempre estava disposto a protegê-lo com sua espingarda de cano duplo.
Todo dia, um certo tamanduá que tinha por nome Parcimonioso passava ao redor da fazenda e escutava os orgulhos os quais Encarceraldo forcejava por trazer a insulto.
- Nada melhor que minha fazenda. Tenho proteção, água, carinho. Isso é um sonho. É muito diferente dessa vida selvagem de um comedor de formigas...
Parciomonioso, Niozinho para os mais chegados, não saiu de sua sobriedade e permanecia em silêncio diante dos regozijos do bezerro. Ele era um sábio, creio. Só não usava óculos porque formiga faz bem pra vista.
Certa época, porém, uma intensa seca sobreveio à região. Em dois tempos, a lagoa secou; em quatro tempos, o Peixe-espadre morreu; e, em oito tempos, o bicho-homem foi embora para a cidade grande. Sozinho, sem água e comida, Encarceraldo falecia em frente ao tão achincoalhado Niozinho. Então, o tamanduá entrou na fazenda e jogou aquela carcaça fora. De agora em diante, a fazenda tinha outro dono.
Parcimonioso dormia no aconchego da fazenda e de manhã ia atrás de comer formigas - por que não? - algumas fêmeas de sua espécie, coisa que o solitário Encarceraldo nunca soube o que é.

Moral 1: A verdadeira liberdade não é está dentro ou fora da fazenda, mas é entrar e sair a hora que bem entender.

Moral 2: Quem não tem fêmea se contenta com água e capim.