Eu sou gaudério e por isso quando
De manhã cedo, eu parto pra lida
Tomo o mate da minha despedida
Até o ronco do último trago
Pra minha prenda deixo meu afago
E o amor que trago no peito
Posso ser grosso, mas é esse meu jeito
De reviver as coisas do meu pago
Dentro do rancho, pego os pelegos
E já começo a encilhar o pingo
Sinta na cara o vento de domingo
E no frio forte desse minuano
O meu tordilho já sai troteando
Porque le gusta viver na campanha
Como me gusta os tragos de canha
Que sempre tomo com o pai castellano
Nasci gaúcho, fronteiriço e do Rio Grande
Não há quem mande eu campear em outro pago
Porque aqui a tradição é mais antiga
E a cantiga no meu peito ainda trago
Por entre potros e tropéis numa rancheira
Numa chaleira esquentava água de rio
Pegava erva que havia em Livramento
Ainda dentro das campanhas do Brasil
Eu relembrava os tempos de Farroupilha
Pelas coxilhas procurava meu cambicho
E foi assim quando se menos se imagina
Que minha china conheci em um bolicho
Levo bombacha, botas e esporas
Porque assim se vive no galpão
E educar cavalo redomão
É fácil com meus pés roseteados
O pala velho, chapéu tapeado
E o galope ficando ligeiro
Quando acontece do peão campeiro
Chegar no pampa pra cuidar do gado
De longe escuto alguma chamarra
Que na querência era a mais tocada
E dê-lhe boca tocando a boiada
E o “êra boi” já vira um gritedo
O cusco velho não fica com medo
Nem com os gritos desses sapucay
Pois foi às margens do Rio Uruguay
Que educaram forte desde cedo
terça-feira, outubro 16, 2007
NumLock e cigarros
Sentia a falta dele, deitada na cama, naquela insônia depois de uma tarde inteira de sono. Os olhos do ursinho que recebera no primeiro mês de namoro ainda brilhavam como se estivesse na loja, e a cada abraço que dava no bicho era como se ainda sentisse o abraço dele. O guarda-roupa estava aberto, de propósito. Mesmo sem conseguir ler devido à distância e à miopia, ela gostava de olhar o formato dos parágrafos e os contornos da caligrafia na carta que estava colada na porta. E era dele, obviamente, aquela missiva, a mais linda que ela já tinha recebido. Tocava no quarto a música que lhe fazia lembrar dele. Quantas vezes ele já tinha dedilhado aquela música, cantando baixinho do ouvido dela. A cada acorde no violão era uma caixa de carinho que se abria. No monitor do computador, tudo escuro e só aquele pontinho verde piscando. O NumLock aceso no teclado e um cigarro aceso no cinzeiro. A cada tragada, era a boca dele que ela pensava trazer na boca. Aquele amor durava horas, acendendo um com as cinzas do outro. E em todas as noites que sentia sua ausência era assim que amenizava a distância.
Fazia dois meses que ele tinha ido e, pelas contas dela, ainda faltavam pelo menos mais dois pra ele voltar. Mas sentia esses meses como se fossem anos, e às vezes chorava calada e sozinha lembrando do sorriso lindo dele. Nem sabia ao certo se ele resistia às seduções das meninas quando estava lá, mas quando estavam juntos, sentia um amor exclusivo e completo. Em algumas aulas, já nem mais se concentrava, calculando o delta t desse carinho nas equações que nem Bháskara ousou desvendar. Apesar de sua mão ainda poder sentir a presença do seio, seu coração já não estava lá. Estava longe, com asas da ilusão e do desejo, querendo de volta os momentos felizes que só ele lhe podia dar.
Num acesso de qualquer coisa repentina, chutou o mouse e viu na tela aquele beijo, agora eterno pelas modernidades fotográficas. Salivando, sentiu na língua como se a saliva não fosse sua, fosse dele. E até o seio estranhou a própria mão, como se também fosse dele. Perdendo-se na imaginação do bem amado, mal viu surgir os primeiros raios da aurora. Caiu em si e sentiu a tristeza de não o sentir mais. Quis chorar com os olhos secos da noite mal dormida, ou melhor, nem dormida. Foi ao banheiro, se olhou, se sentiu feia, e urinou como se quisesse soltar aquelas lágrimas presas, pela vagina.
Foi até a sala, tudo ainda escuro, salvo um raiozinho de sol vindo pela fresta debaixo da porta. Escutou a campainha num toque seco. Teria mandado tudo à merda e dormido se fosse um dia comum. Mas já estava há tanto tempo acordada e com tantos sentimentos dentro de si, que só pensou baixinho que merda e foi ver pelo olho mágico quem se atrevia. O que viu foram rosas. E por trás das rosas aquele que era seu sonho, seu homem, seu tudo. Ficou pensando se o olho era mágico, ou se mágica era a vida com suas idas e vindas. E sem pensar em como estava o cabelo ou na ausência do sutiã, abriu porta desesperada pela saudade e matou-a num beijo longo, com rosas no chão, onde o gosto dos cigarros foi rapidamente transformado na frescura de um halls vermelho. E quando acordou do sonho, estava na cama, sem rosas, sem ele, e lendo em grandes letras laranjas: “seu computador já pode ser desligado em segurança”.
Fazia dois meses que ele tinha ido e, pelas contas dela, ainda faltavam pelo menos mais dois pra ele voltar. Mas sentia esses meses como se fossem anos, e às vezes chorava calada e sozinha lembrando do sorriso lindo dele. Nem sabia ao certo se ele resistia às seduções das meninas quando estava lá, mas quando estavam juntos, sentia um amor exclusivo e completo. Em algumas aulas, já nem mais se concentrava, calculando o delta t desse carinho nas equações que nem Bháskara ousou desvendar. Apesar de sua mão ainda poder sentir a presença do seio, seu coração já não estava lá. Estava longe, com asas da ilusão e do desejo, querendo de volta os momentos felizes que só ele lhe podia dar.
Num acesso de qualquer coisa repentina, chutou o mouse e viu na tela aquele beijo, agora eterno pelas modernidades fotográficas. Salivando, sentiu na língua como se a saliva não fosse sua, fosse dele. E até o seio estranhou a própria mão, como se também fosse dele. Perdendo-se na imaginação do bem amado, mal viu surgir os primeiros raios da aurora. Caiu em si e sentiu a tristeza de não o sentir mais. Quis chorar com os olhos secos da noite mal dormida, ou melhor, nem dormida. Foi ao banheiro, se olhou, se sentiu feia, e urinou como se quisesse soltar aquelas lágrimas presas, pela vagina.
Foi até a sala, tudo ainda escuro, salvo um raiozinho de sol vindo pela fresta debaixo da porta. Escutou a campainha num toque seco. Teria mandado tudo à merda e dormido se fosse um dia comum. Mas já estava há tanto tempo acordada e com tantos sentimentos dentro de si, que só pensou baixinho que merda e foi ver pelo olho mágico quem se atrevia. O que viu foram rosas. E por trás das rosas aquele que era seu sonho, seu homem, seu tudo. Ficou pensando se o olho era mágico, ou se mágica era a vida com suas idas e vindas. E sem pensar em como estava o cabelo ou na ausência do sutiã, abriu porta desesperada pela saudade e matou-a num beijo longo, com rosas no chão, onde o gosto dos cigarros foi rapidamente transformado na frescura de um halls vermelho. E quando acordou do sonho, estava na cama, sem rosas, sem ele, e lendo em grandes letras laranjas: “seu computador já pode ser desligado em segurança”.
domingo, fevereiro 26, 2006
Inultilidade do ser
Foi quando as cinzas do cigarro ficaram tão grandes a ponte de não se sustentarem no filtro que ele notou: é preciso fazer algo. O quê, ele não sabia; mas sentia uma vontade tamanha de agir de alguma maneira útil. Ponteiros andavam, pra lá e pra cá, e tempo sóbrio caminhava em passo de estrada pelas ruas da angústia e da agonia. E se acendesse outro cigarro?
Acendeu-o e tragou. Quantas caras ainda mereciam uma baforada e não houvera um só pé-de-pessoa ousado a dá-la! O dito cujo pensou que talvez ele pudesse fazer algo. Não era muito dado a falta de educação. Cidadão honrado, bem casado e com filhos. O que iriam dizer se o vissem a dar baforadas na caras de homens de bem que andavam pelas avenidas? "Ficara louco, coitado! E que será da mulher e dos filhos?" E caminhava agora a reunir as cinzas em seu próprio bico. Sentou no bar, um litro de Red Label, por favor, água de côco e muito gelo. Queria esfriar ou até mesmo congelar aquela vontade de vontade. Fazer algo... Fazer algo? Para que diabos fazer algo? Prefiro a inércia.
E quando o litro acabou, foi ao banheiro. Vomitou um pouco, urinou fora do mictório e lavou as mãos e o rosto. Ao se olhar no espelho, viu o espectro da tormenta. Que fazia consigo? Era útil e além do mais bêbado e fumante. Seu lábio pendia da boca e já alcançava o queixo. Olhos baixos, quase vermelhos e vômito na privada. A carteira, havia perdido. Não era ninguém, não via ninguém, não queria ninguém. E foi ali no banheiro, cheio de vômito, urina, espelho, privada, azulejo e ninguém, que ele pensou que poderia ser útil, que ele pensou que o melhor a fazer era comprar mais whisky.
Acendeu-o e tragou. Quantas caras ainda mereciam uma baforada e não houvera um só pé-de-pessoa ousado a dá-la! O dito cujo pensou que talvez ele pudesse fazer algo. Não era muito dado a falta de educação. Cidadão honrado, bem casado e com filhos. O que iriam dizer se o vissem a dar baforadas na caras de homens de bem que andavam pelas avenidas? "Ficara louco, coitado! E que será da mulher e dos filhos?" E caminhava agora a reunir as cinzas em seu próprio bico. Sentou no bar, um litro de Red Label, por favor, água de côco e muito gelo. Queria esfriar ou até mesmo congelar aquela vontade de vontade. Fazer algo... Fazer algo? Para que diabos fazer algo? Prefiro a inércia.
E quando o litro acabou, foi ao banheiro. Vomitou um pouco, urinou fora do mictório e lavou as mãos e o rosto. Ao se olhar no espelho, viu o espectro da tormenta. Que fazia consigo? Era útil e além do mais bêbado e fumante. Seu lábio pendia da boca e já alcançava o queixo. Olhos baixos, quase vermelhos e vômito na privada. A carteira, havia perdido. Não era ninguém, não via ninguém, não queria ninguém. E foi ali no banheiro, cheio de vômito, urina, espelho, privada, azulejo e ninguém, que ele pensou que poderia ser útil, que ele pensou que o melhor a fazer era comprar mais whisky.
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