sábado, janeiro 29, 2005

Velho agricultor anarquista

Texto de minha autoria quando mais moço sob o pseudônimo Roberto Cabral
[ p.roney.vila.bol.com.br ]

1.

Sou um velho agricultor
Colho fome e desgraças
E também escrevo versos
Em minhas poucas horas vagas
Versos pobres sem lirismo
Sou do povo estigmata
Povo cheio de abandono
De miséria e de nada

Os meus filhos são doentes
Bem mais vermes do que filhos
Corpo inteiro pesa menos
Que o grande intestino
Os espinhos que eles comem
Deixam-lhes bem mais famintos
As desgraças desta vida
Eles cultivam comigo

Também tenho filhas putas
Frutos podres de mim mesmo
Todas têm uma etiqueta
Indicando os seus preços
Elas moram na cidade
E me tratam com desprezo
Acham que a própria vida
Vale menos que dinheiro

As palhas onde habitamos
São feitas de esqueletos
Cimentadas com miséria
Fortalecida com tempo
Na cozinha só existe
Os espinhos que comemos
E que sempre são salgados
Pelos choros de lamento

Minha vida é privação
Do que é próprio da vida
Isso faz da própria morte
Mais irmã e mais amiga
Eu tomo por meu destino
Morrer um pouco por dia
Pois minha vida é muito fraca
Desnutrida e franzina

2.

Sou um velho agricultor
Minha terra é muito magra
Se plantando nada dá
Só doenças e mais nada
Nós colhemos bactérias
A colheita não tem data
E até antes do plantio
A colheita já se acaba

A chuva que vem do céu
No céu mesmo evapora
Não existe nada verde
É marrom a nossa roça
Nosso mundo é franciscano
É marrom também a horta
Nessa vida de pobreza
Escavamos nossa cova

Não tenho nada de carne
Nem ao mesmo no meu corpo
Esta vida me deixou
Menos homem e mais osso
E até o meu esqueleto
Tornou-se frágil e oco
A magreza se espalhou
E infectou o corpo todo

Sou um pobre aprisionado
Lutando contra o destino
De tirar meu alimento
Deste solo sempre extinto
Mas minhas idéias voam
Mais longe que imagino
Rompem todas as barreiras
E superam interditos

Eu não sou nenhum romântico
Sei que não existe jeito
Nosso mundo é egoísta
Todos querem o governo
As pessoas andam tristes
E trabalham sem sossego
Todos acham que o prazer
Vale menos que dinheiro

[...]

Para ver o final, http://p.roney.vila.bol.com.br/rcvaa.htm ...

Psicopata incompreendido

Texto de minha autoria quando mais moço sob o pseudônimo Roberto Freire Jr.
[ p.roney.vila.bol.com.br ]

Um psicopata lembrou algo

Ele lembrou que a vida pode ter
Cento e vinte anos e nove meses
Mas também pode acabar antes
Que o abrigo da vida se forme

Ele lembrou que quem mata é assassino
Que todos, mesmo sem terem direito
a pão, saúde, educação e um coração vermelho
Deve ter uma chance de arranjar um jeito de sobreviver

Ele lembrou que ninguém é o dono da vida
Nem sua, nem dos filhos, nem de ninguém
E que tirá-la é roubo, furto, crime
Em qualquer circunstância que ocorra

Ele lembrou que a vida é um suicídio diário
E quem não morre também não vive
Nem aproveita o prazer de suicidar-se
De explodir a cada dia como um homem-bomba

Ninguém quis saber disso

Ninguém quis saber de loucuras, sonhos
de um mero psicopata internado
No pior hospício da capital mundial
Se é o que mundo possui capital

Ninguém quis saber que o capital
É o culpado da fome, da preguiça, da TV
Do outono inexistente, do sol mais quente
E da substituição do colorido pelo preto

Ninguém quis saber que um psicopata
Mesmo sendo feio, desdentado e sujo
Também sente necessidade de carinho
E de atenção e também de fazer sexo

Ninguém quis saber que a própria vida
Corria perigo de inexistência
Porque a morte não é mais aceita
E esquecemos de viver pra não morrermos

Com licença, professor

Texto de minha autoria quando mais moço
[ http://p.roney.vila.bol.com.br ]

Eu sou um aluno cearense do ensino médio
Mas não me preocupo com as provas
Nem com vestibular, concursos e notas

O que acho importante é passar de ano
Para não ter que agüentar por mais doze meses
Colégio, chatices e aluno burgueses

Sentar na carteira escolar de sempre
Desprezar os professores, meditar problemas
E soluções e sonhos e fazer poemas

Não agüento mais meninas amostrando
Que sabem algo que pra mim é nada
Que se acham popstars vestindo farda

Queria ser amigo de uma moça forte
Que aos quinze anos à luz da lamparina
Escreve um romance da seca nordestina

Queria ser amigo de um compositor
De um mero rapaz latino-americano
Com sonhos, com sangue, com planos

Queria ser amigo de um menino doido
Que não agüenta mais matérias escolares
E que prefere beber Rum Maré nos bares

Não queria ter amigo nenhum
Queria vagar sozinho e descalço nas praia
Vendo meninas usando longas saias

Queria, ao menos por um momento, ter o dom
De de saber que ninguém manda em nada nem em mim
E sentir o cheiro da morte qual jardim

Eu queria somente ter ao meu lado o vago,
A inexistência de tudo, do sangue, do corte,
Da ferida sem cicatriz revelando a morte

Tenho tempo, capacidade, força, tudo
Eu queria fazer algo pelo mundo
Mas sou um mero aluno cearense e vagabundo