quarta-feira, dezembro 29, 2004

Como eu faço um poema

O pâncreas do piano dorme sossegado
E a insônia coxa caminha no poeta
Sem sonho, sem lápis, sem audácia, injeta
Nas artérias do sono o vício alado

Sem sonho, sem lápis, sem audácia, injeta
Bibliotecas sofrendo dores do parto
Relógios de sangue cantam o tempo farto
No tom da sua parede ambulante e concreta

Relógios de sangue cantam o tempo farto
Baralhos elétricos prestam continência
À ignorante solução e à demência
Do dois de paus que eu, com orgulho, descarto

À ignorante solução e à demência
Rumam as tropas da favela sem espinho
Portas despetaladas, gotas de carinho
Só morrer e matar se tornam incumbência

Portas despetaladas, gotas de carinho
Eu gostaria de cuspi-las na tua alma
E nos penachos que enfeitam o teu trauma
Eu gostaria da tesoura e do sozinho

E nos penachos que enfeitam o teu trauma
Eu gostaria da tesoura e da coragem
De caravelas pra seguir essa viagem
De muitos livros, da razão e de uma calma

As pontas do meu chapéu

De manhã, minha criada vem e banha
Esse corpo tão franzino e infantil
Anoitecendo, vem salvar-me desse frio
Com as cantigas populares da Alemanha

Chapéu, três pontas, propriedade e egoísmo...
Pobres neurônios meus entram em convulsão
E junto a ácidos (patológica união)
Fazem da mente o lar do nada e do abismo

Num suicídios de facetas momentâneas
Faço o trajeto do céu ao inferno a pé
Vejo a moontanha indo até o Maomé
Reúno as minhas orações em coletâneas

Ó fonte nobre de toda sabedoria
Ó preces mil destinadas ao diabo
Que as tomando em suas mãos de moço brabo
Lança ao fogo toda a Terra em agonia

Três mil chapéis, algumas mães, milhões de pontas
Duzentas cabras pra satisfazer crianças
E para que as mulherem entrem nas danças
Vários chicotes, tantos que perdi a conta

Aritmética mundana e maldita
Na qual trabalho desleixado e sem afindo
Para diabos, bastam duzentos e cinco
E apenas um, eu, para ser o sibarita!

O que tenho vivido

É amargura o que tenho nessa vida
É angústia acre, azeda e venenosa
Como a abelha que cuspindo sobre a rosa
Destrói e mata a alegria antes florida

É muito esforço para esboçar um riso
Às vezes tento fingir que sou feliz
E alguém rindo da gracinha que eu fiz
É quase sempre a recompensa que preciso

É claro, sei que ninguém acha bacana
Esse menino enjoado que eu sou
Que insistente certo dia pertubou
A diversão de uma Camila e uma Joana

Quando o diabo sobe ao céu e rouba o sol
Vai junto a ele todo o fraco fingimento
E me invade a solidão num só momento
E me congelo "like a Porcelain Doll"

E fecho a cara e fecho o riso e fecho a boca
E eu mergulho nesse óleo podre e roxo
Tiro a camisa e coloco um calção frouxo
Durmo esperando o sol de novo a vida loca